Pular para o conteúdo principal

O Mito da Independência - Artigo

 

Ironicamente, adoro aniversários, mas odeio todo começo de ano. O fato é irônico, porque eu comemoro mais um ano de vida no 3° dia de janeiro; então, por mais que eu goste muito do dia do meu aniversário, esse sentimento é diluído em doses de medo e ansiedade em razão das grandes expectativas mundiais depositadas nos próximos 12 meses.

Eu julgo demais a galera que fala que tal ano vai ser diferente do outro, apesar de eu fazer de forma idêntica àqueles que suportam o meu julgamento. É como se, magicamente, de um segundo para o outro, fôssemos nos tornar outra pessoa, com uma nova vida, novas esperanças, novos ideais… Só que, no final, não passa de um suspiro de 23h59 a outro que nos leva às 00h do ano seguinte. 

É como se a nossa felicidade fosse toda e milagrosamente  responsabilidade do ano novo. Mas, somos assim mesmo. Colocamos a nossa felicidade sempre nas costas de alguém, de algo, de alguma data. E nunca sob o nosso encargo.

E foi nessa de descobrir que eu deveria fazer eu mesma feliz, que o início de 2022 me esmurrou com o mito da independência.

Antes de entender isso, é muito importante compreender  o contexto do ano anterior. 

Sem dúvidas, foi um dos anos mais desafiadores - um baita eufemismo ridículo que só de escrever eu tenho vontade de me bater - da minha vida.

Me mostrou os perigos da dependência emocional e me ensinou que eu deveria ser feliz sozinha. Pelo menos é o que eu tinha entendido. 

2021 foi tão ridículo comigo, que eu cheguei a cogitar largar a faculdade de letras em uma das universidades mais sensacionais do Brasil, a linda e causadora de grande parte do meu desgaste emocional, Utfpr. Isso porque, aqueles 12 e atropelados meses me ensinaram tanto, que não via sentido dedicar horas de estudo, sendo que até sem eu querer a vida estava me tapeando com aprendizados.

Chegou enfim 2022, e eu tinha colocado já há alguns meses na minha cabeça que eu precisava dar um encerramento para 2021. 

Aí, o que aconteceu? Ao invés de fazer o mundialmente famoso depósito de responsabilidade da felicidade individual em um simples virar de calendário, eu depositei em 3 segundos de 70m de queda livre.

Inteligente? Não.

O negócio é que para a minha queda livre, eu deveria viajar de um estado para o outro e ficar em uma cidade que eu não conhecia. E, com todo aquele ensinamento equivocado de 2021, coloquei na minha cabeça que deveria fazer toda essa viagem sozinha. 

Ahhhh… que liberdade! Adeus dependência emocional, agora eu sou feliz sozinha! 

Quem me dera.

Fiz a loucura de ir sozinha para uma cidade que eu nunca tinha ido, que eu não conhecia absolutamente ninguém, fazer uma coisa que eu nunca tinha feito. Se você ainda não descobriu a receita para fazer merda, essa acima é a que tem maior probabilidade de acertar no erro.

Fui. Cheguei em um lugar super conhecido pelas praias e, pasme, não consegui chegar em nenhuma. 

Para encurtar, essa viagem o maior desafio da minha vida. O salto foi incrível e foi demais poder colocar a minha coragem à prova. Ainda não acredito que tive a audácia de fazer isso. 

Mas, podia sim, ter dado tudo super certo, com a companhia certa. Passei perrengue atrás de perrengue e, sozinha, não foi divertido. Foi triste. 

Isso porque, toda essa independência que eu achei ter e precisar exalar, se transformou apenas em solidão. Sejamos sinceros, é muito lindo ler no Facebook e no Instagram que o amor-próprio é tudo e que devemos ser suficientes sozinhos. Mas não somos.

Você deve sim ser feliz com a sua companhia. Seja feliz consigo mesmo. Mas nunca cometa o mesmo erro que eu de confundir independência e liberdade com solidão. 

Nascemos e crescemos desde o primeiro momento de vida, nos socializando. Até por chutes mostramos a alguém que estamos ali. Não nascemos sozinhos e não devemos ficar sozinhos.

Sim, no final, é super importante saber que a sua vida e felicidade é sim de inteira responsabilidade sua. Mas isso não significa que você deve estar sozinho. Isso significa que as suas escolhas definirão a sua felicidade. Seja do lugar que está ou da pessoa e companhia que escolheu para estar ao seu lado.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Resenha A Sutil Arte de Ligar o Foda-se

 Irônico, descontraído e despojado, Mark Manson em "A Sutil Arte de Ligar o Foda-se", fala com uma ousadia nova, até então não vista, em um livro de autoajuda. Como uma conversa entre amigos, o autor tem uma escrita muito clara e objetiva. Fala de temas comuns de formas diferentes às padrões. Bem humorado, o blogueiro mostra, sucintamente, que o importante é o que importa.  Não seremos bem sucedidos em todas as facetas da nossa vida e, por isso, devemos escolher o que realmente importa e ligar o foda-se para o restante. Devemos escolher nossas batalhas. Fala que "a verdadeira felicidade só se dá quando você descobre quais problemas gosta de ter e de resolver". Em outros momentos, mostra a diferença entre culpa e responsabilidade. Neste âmbito, usa o exemplo de um bebê sendo deixado em sua porta: a culpa do bebê estar lá não é sua; todavia, a responsabilidade é. Você deve decidir o que fará com ele (se levará a polícia, adotará, etc). "Muita gente pode ser culpa...

Reflexões sobre O que é Fascismo? E outros ensaios

"Vivemos uma época na qual a democracia está em retirada em quase todo lugar, em que super-homens estão no controle de três quartos do mundo, em que a liberdade é descartada na explicação de insidiosos professores, em que o espancamento de judeus é defendido por pacifistas. E ainda assim, em toda parte, sob a superfície, o homem comum agarra-se obstinadamente às crenças que ele vai buscar na cultura cristã. O homem comum é mais sábio que os intelectuais, assim como os animais são mais sábios que os homens. Todo intelectual é capaz de lhe fazer uma esplêndida defesa do esmagamento dos sindicatos alemães e da tortura dos judeus. Mas o homem comum, desprovido de intelecto, que tem apenas instinto e tradição, sabe que 'isso não está certo'." A não ser pela data original de 1940, o texto poderia facilmente ser considerado de hoje ou algumas semanas. O quão relevante é a fala de Orwell para a nossa atual conjuntura política e social é imensurável. Ele nos mostra que a nossa...